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Pediculose capilar (Piolhos) PDF Imprimir e-mail

Artigo de: Mundo Farmacêutico /  Nº 30, Setembro e Outubro de 2007

Fonte: JAS Farma

 

Dr.ª Maria Fernanda Santos

 

Pediculose capilar
- Dr.ª Maria Fernanda Santos
Farmacêutica comunitária

 

 

 

Da erradicação à resistência

 

Enquanto farmacêuticos integrados no Sistema de Saúde e na comunidade, somos responsáveis pelo controlo das infestações de piolhos.

Os níveis de preocupação dos farmacêuticos tanto devem passar pelo esclarecimento de falsos pressupostos sobre piolhos, rastreio, motivação para o tratamento como providenciar acompanhamento. A responsabilidade do farmacêutico envolve também colocar em prática políticas que previnam infestações sem promover resistência aos pediculicidas.

Existem vários tipos de pediculose, mas o mais frequente é o da cabeça.

Este artigo refere as cinco maiores preocupações relativamente ao controlo das infestações dos piolhos capilares nas crianças em idade escolar.

O termo médico para a infestação capilar de piolhos – pediculose – refere-se ao progenitor de seis patas também conhecido por Pediculus humanus capitis. Compreender a natureza desta pequena peste levará a prevenir que se espalhe. O insecto cinzento-branco a vermelho ou preto, sem asas, mede 2 a 4 mm de comprimento, aproximadamente do tamanho de uma semente de sésamo.

A fêmea adulta deposita 3 a 10 ovos fertilizados, ou lêndeas, por dia nas bases dos eixos capilares. Incubados à temperatura normal corporal, as lêndeas eclodem em 10 a 12 dias, passando de seguida por três estádios ninfais em menos de duas semanas, tornando-se piolhos adultos capazes de sobreviver até 30 dias alimentando-se de sangue humano. No entanto, sem um hospedeiro humano eles raramente sobrevivem mais do que 36 horas.

Felizmente, os piolhos capilares geralmente são erradicados com champôs, loções e cremes. As substâncias activas mais comuns presentes nestes produtos incluem:

– Piretrinas (também conhecido como extracto de piretro) e permetrina com butóxido de piperonilo;

– Novas fórmulas à base de extractos de noz de coco e de óleo essencial de anis, que conseguem obstruir os orifícios respiratórios dos piolhos impedindo-os de respirar, surgem agora no mercado como alternativa aos antiparasitários autorizados, contudo, a sua eficácia não está comprovada.

Existem também ainda no mercado outros produtos contendo lindano, só que o uso continuado destes produtos pode levar a resistências e aumento do risco de toxicidade.

As apresentações loções/emulsões são geralmente preferidos aos champôs porque, para além de permitirem um tempo de contacto maior, parecem estar menos associados às resistências. As soluções aquosas devem ser recomendadas a asmáticos e crianças para evitar a inalação de extractos alcoólicos potencialmente irritantes, são também contra-indicados nestes dois grupos os aerossóis.

De qualquer forma, para além dos intensivos rastreios e esforços de erradicação nesta sofisticada era médica, a incidência de piolhos capilares tem vindo a aumentar.

Os farmacêuticos lidam com os piolhos capilares a nível individual quando o utente se dirige à farmácia, mas também tem responsabilidade mais alargada para com a comunidade. Somos responsáveis pela educação do público de modo a que a transmissão e reinfestação possam ser reduzidos.

 

Desmentir falsos juízos sobre os piolhos capilares

 

Os piolhos capilares infestam a humanidade há pelo menos 5000 anos. Os piolhos e os seus ovos foram mumificados com a anciã nobreza egípcia, e foram recuperados em pentes com 2000 anos encontrados no deserto judeu. Desde esses tempos falsos juízos têm rodeado este pequeno parasita humano.

 

Mitos sobre a origem dos piolhos capilares

 

Antes do aparecimento do microscópio acreditava-se que os piolhos eram formados por geração espontânea do lixo, doença ou suor. Embora os avanços científicos do século XIX tenham esclarecido a génese dos piolhos capilares, muitas pessoas com elevados níveis de educação continuam a associar piolhos com uma má higiene pessoal.

A vergonha, nojo e embaraço podem levar ao silêncio sobre uma infestação, assegurando o tempo adequado para que os piolhos estabeleçam o seu território e infectem novos hospedeiros. Devido a esta razão, os trabalhadores na área de saúde continuam na procura da chave para evitar epidemias de piolhos.

O modo de transmissão dos piolhos é muitas vezes mal-
entendido. Os piolhos não conseguem saltar como as pulgas, e como não possuem asas, não conseguem voar. Pelo contrário, os piolhos passam de uma pessoa para a outra pelo contacto cabeça com cabeça, por exemplo, durante um abraço. Outros modos de transmissão envolvem a partilha de artigos pessoais que entrem em contacto com a cabeça, incluindo chapéus, capacetes, escovas, auscultadores e fitas do cabelo. A partilha de camas, almofadas e artigos de casa de banho também permitem a transmissão. Os piolhos podem cair do seu hospedeiro para as carpetes, mobiliário de casa, cadeiras de cinema, etc. Pessoas que entrem em contacto directo com estes artigos podem, subsequentemente, ficar infestados.

 

Mitos sobre quem «apanha» piolhos

 

Os piolhos procuram qualquer hospedeiro humano. Eles desejam comida, calor e protecção, e assentam na primeira oportunidade que apareça. No entanto, pessoas de classes socioeconómicas elevadas acreditam que são candidatos improváveis à infestação. Estas crenças erróneas põem em causa o tratamento imediato e encorajam a disseminação.

De facto, as infestações por piolhos relacionam-se de um modo muito fraco com a higiene pessoal, uma boa higiene pessoal não previne a infestação. Estudos indicam que os piolhos podem preferir uma cabeça limpa do que uma suja. No entanto, combinado com sobrepopulação, uma má higiene aumenta a transmissão.

 

Assegurar que as infestações não passem despercebidas

 

Instaurar políticas de rastreio nas escolas

 

A percepção dos piolhos capilares resulta de um esforço geral, envolvendo tanto os pais como o pessoal escolar. A informação no início do ano escolar pode encorajar os pais a serem vigilantes em qualquer altura. Os pais devem também ser encorajados a notificar infestações à escola em vez de as manter em segredo.

Infestação por piolhos é traumatizante para as crianças
assim como para os pais, sendo por isso da responsabilidade do pessoal escolar evitar uma reacção exagerada e nunca colocar as culpas na criança.

Alguns especialistas recomendam três tipos formais de rastreio durante o ano escolar: o primeiro, durante a semana inicial quando a escola recomeça as aulas; o segundo rastreio deverá ocorrer logo a seguir às férias do Natal e o terceiro rastreio deverá ser feito durante a última semana de aulas.

 

Como diagnosticar

 

A pesquisa na cabeça deve envolver mais do que uma vista de olhos superficial no cabelo. Para além de inspeccionar o couro cabeludo, o inspector deve examinar atrás das orelhas e a nuca do pescoço com uma lupa, procurando tanto as lêndeas como os piolhos vivos. As lêndeas são os ovos brancos prateados, medem cerca de 1 mm, em forma de lágrima e aderem firmemente ao eixo capilar, geralmente perto do couro cabeludo. Os piolhos vivos estão geralmente presentes mas encontram-se bem camuflados e fogem rapidamente da luz.

As lêndeas podem ser confundidas com caspa. O factor de diagnóstico é o quão facilmente o material suspeito pode ser removido do cabelo. As lêndeas não são facilmente removidas do cabelo porque se encontram cimentadas ao eixo capilar.

 

Assegurar que sejam compreendidas as instruções para um tratamento efectivo

 

Ajudar os pais a tratar infestações

 

Embora a pediculose seja um problema da comunidade, a responsabilidade para eliminação dos piolhos recai nos pais. Da mesma forma, a prevenção começa em casa com os pais como primeira linha de defesa.

O farmacêutico pode ajudar os pais a aprender técnicas efectivas para remoção das lêndeas. A maioria dos pais encontra-se bastante ansiosa para se ver livre da infestação e desejosa por cumprir com as recomendações. No entanto, o farmacêutico deve lembrar-se que para muitos pais, a remoção de piolhos está muito em baixo na lista de problemas com que eles têm de cooperar. Nestas famílias, o trabalho começa pela motivação no processo de erradicação, para o bem da comunidade assim como para o bem da sua própria família.

Quando os piolhos são encontrados numa criança, o pessoal escolar informa os pais, e explica a importância do tratamento, encaminhando para a farmácia. Uma vez que a falha no tratamento geralmente advém de uma técnica fraca, instruções sobre como usar os pediculicidas deve ser providenciada. Protocolos escritos são altamente encorajados para veicular instruções que inicialmente parecem estranhas, complicadas e ilógicas. O uso correcto é importante não só para garantir a erradicação, mas também para garantir segurança.

Preparações contendo lindano podem ter efeitos neurotóxicos; outros pediculicidas podem causar reacções alérgicas e locais. Grávidas e mulheres que estejam a amamentar devem ter cuidados especiais antes de usar pediculicidas. Estas precauções também se devem ter com crianças com menos de 2 anos.

Os pediculicidas nem matam todas as lêndeas nem fazem com que todas caiam. No entanto, pentes especialmente desenhados para remoção dos ovos tornam este processo mais rápido e eficaz. Uma mistura de 50% vinagre e 50% água aplicada no cabelo uma hora antes da tentativa de remoção das lêndeas com o pente, poderá ajudar a tornar mais solto o cimento que as mantém no lugar, mas os pais deveram ser avisados que esta mistura não irá matar os piolhos. Alguns autores refutam a utilidade desta solução de vinagre como auxiliar na remoção das lêndeas.

Se o cabelo deve estar molhado ou seco enquanto se penteia é discutível. Pentear o cabelo molhado é mais fácil, mas o pente poderá escorregar tão facilmente que as lêndeas não são capturadas. Com o cabelo seco, as crianças podem não tolerar o desconforto provocado. Numa tentativa de optimizar esta situação, o cabelo deve encontrar-se ligeiramente húmido para a remoção das lêndeas com um pente. Adicionalmente, o uso de um condicionador pode beneficiar este procedimento.

Pentear e separar o cabelo em quatro secções com um pente normal antes de usar o pente para remoção das lêndeas. Uma secção de cada vez é penteada da seguinte maneira: metade de uma porção de cabelo é levantada com uma mão, depois penteada desde o couro cabeludo até as pontas do cabelo com a outra mão. A cola das lêndeas agarra-se de tal maneira que as lêndeas não se soltam.

Trabalhar com pequenas porções de cabelo ajuda a prevenir um número exagerado de lêndeas. As lêndeas e os cabelos contendo lêndeas devem ser removidos do pente com um papel e colocados num saco plástico para prevenir reinfestação. Este processo deve-se repetir nas quatro secções do cabelo. O cabelo é depois enxaguado em água morna. Deve-se ter cuidado para que as lêndeas não caiam nas roupas ou toalhas que poderiam tornar-se uma fonte de transmissão.

 

Tipos de medicação

 

Produtos contendo piretrina devem ser aplicados em cabelos secos. Aplicar pediculicidas num cabelo molhado resulta numa diluição imediata 15 a 150 vezes inferior à concentração inicial. Os produtos baseados em piretrina estão desenhados para serem totalmente enxaguados, não deixando qualquer resíduo. Estes produtos são depois reaplicados sete a 10 dias depois para erradicar os piolhos que eclodiram das lêndeas viáveis que restavam.

Os produtos baseados em permetrina são preparados para deixar um resíduo de modo a eliminar as ninfas que iram emergir das lêndeas restantes. Sendo contudo a principal razão para o aparecimento de estirpes de piolhos resistentes.
As toalhas usadas para secar o cabelo antes de aplicar um pediculicida devem ser manuseadas com cuidado uma vez que se podem encontrar contaminadas.

Os pediculicidas à base de piretrina e permetrina, quando usados directamente, podem erradicar completamente os piolhos em sete ou 14 dias após o tratamento inicial.

No caso de ocorrer uma reinfestação ao fim de seis meses após tratamento, deve-se recomendara utilização de um anti parasitário diferente para o novo tratamento.

 

Desencorajar o uso de remédios caseiros

 

Os pais devem ser desencorajados em relação ao uso de tratamentos não convencionais para os piolhos. Algumas pessoas acreditam erradamente que lavar o cabelo com bastante água irá remover as lêndeas. Pelo contrário, o processo de lavagem pode promover a disseminação das lêndeas ao serem transferidas para toalhas usadas para secar o cabelo, tornando as toalhas num vector.

 

Explicar o ciclo de vida para encorajar tratamento em conformidade

 

Os piolhos capilares dependem do sangue humano e de temperaturas moderadas para sobreviver. O piolho pode sobreviver em temperaturas entre 15 e 38ºC. Os piolhos, depois de eclodir, são bastante mais sensíveis ao tratamento com pediculicidas do que as lêndeas. Os regimes terapêuticos são formulados tendo em conta a vulnerabilidade do piolho adulto.

Assim sendo, um segundo tratamento é necessário para produtos à base de piretrina e permetrina, após sete a 10 dias, quando as lêndeas restantes atingem o estágio adulto. Dados recentes sugerem que esperar os 10 dias é o mais adequado.

 

Descontaminação do lar

 

Todas as pessoas que entram em contacto com outras infectadas devem ser informadas, examinadas e tratadas, se necessário. Estes tratamentos evitam ciclos de infestação e reinfestação entre membros da família e amigos.

Material para usar na cabeça, como capacetes de desporto ou ciclismo devem ser meticulosamente aspirados. Ao contrário das crenças populares, os animais de estimação não necessitam de ser rastreados ou tratados. Os animais domésticos podem ser infestados por uma série de parasitas mas os piolhos humanos não os afectam, no entanto os animais podem servir como transporte para os piolhos.

 

Educar a comunidade acerca do uso correcto dos pediculicidas

 

Efeitos potenciais dos baixos níveis de resíduos dos pediculicidas

 

A resistência aos pediculicidas pode-se desenvolver com qualquer produto mas aparenta ser mais provável com uns do que outros.

Usando a resistência a antibióticos como modelo, investigadores propuseram que os piolhos expostos a doses subletais de pediculicida podem sobreviver. Ao longo de várias gerações, alguns podem sofrer mutações suficientes para se tornarem resistentes para o fármaco original. Os investigadores postularam que a lenta diminuição da permetrina no cabelo após tratamento pode resultar num período de exposição dos piolhos a uma dose subletal de insecticida provavelmente afectando a sua reprodução e exercendo alguma selecção no aparecimento de resistências.

 

Passos para evitar o desenvolvimento de resistências

 

A resistência surge quando o insecto se encontra em contacto com o pediculicida e sobrevive. Prevenir a resistência envolve garantir que os níveis de pediculicida são consistentemente altos o suficiente para não permitir sobreviventes. Idealmente o uso de pediculicidas deve ser regido pelas mesmas regras que regem o uso de antibióticos, isto é, não os usar a não ser em casos de necessidade evidente.

O uso periódico de pediculicida como uma medida preventiva é uma vantagem para os piolhos na medida em que lhes dá tempo para desenvolverem resistência ao veneno.

 

Reduzir que as infestações se espalhem

 

Encorajar a abertura e a comunicação

 

Uma comunicação aberta é essencial para limitar a disseminação dos piolhos através de pessoa a pessoa. Este processo é bastante difícil para as pessoas, que muitas vezes se sentem embaraçadas e até insultadas com o diagnóstico feito. Intencionalmente ou não, muitas pessoas resistem ao controlo dos piolhos. Importante estabelecer um modo de comunicação de isenção de culpa, para encorajar os pais a notificar todos os casos descobertos.

Esta comunicação aberta é de extrema importância para o tratamento apropriado das crianças expostas e do ambiente, e para prevenir a disseminação da infestação e reinfestação.

 

Conclusão

O farmacêutico de oficina, como agente de saúde integrado na comunidade, tem a responsabilidade chave em parar a disseminação da pediculose. Embora já haja pediculicidas altamente efectivos, o controlo da infestação envolve aplicação do conhecimento, diplomacia, capacidade de educação, manter registos e seguimento.

Tratar eficazmente as crianças infestadas é a medida mais importante para prevenir a disseminação. A eliminação da infestação de piolhos envolve três passos: tratamento com um pediculicida, a remoção das lêndeas e o tratamento dos artigos pessoais e do ambiente. A remoção correcta das lêndeas é essencial uma vez que nenhum pediculicida é 100% ovicida. Deixar lêndeas no cabelo pode levar a um mau diagnóstico e reinfestação.


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Dr.ª Maria Fernanda Santos
Farmacêutica comunitária